primeira peregrinação pela ferrovia do Contestado

Durante a  primeira peregrinação pela ferrovia do Contestado, cobri apenas uma pequena parte do trecho Porto União/SC a Marcelino Ramos/RS. Nesta segunda visita à região, procurei cobrir esta lacuna, e também revisitei alguns arredores de Porto União.
Para quem não leu o outro artigo, "Ferrovia do Contestado" é a denominação informal do trecho catarinense da ferrovia Itararé-Uruguai: a primeira ligação terrestre "rápida" entre SP e RS e dali para os países platinos.

Primeiro dia

O primeiro dia foi despendido basicamente no deslocamento até Porto União/SC, e na visitação da região em torno, cobrindo alguns pontos que ficaram a descoberto no primeiro passeio: antigo pátio de cargas, cachoeira do "km. 13", Legru e Timbó.
Figura 1: Ponte ferroviária sobre o Rio Timbó, próximo à foz no Rio Iguaçu
Figura 1: Ponte ferroviária sobre o Rio Timbó, próximo à foz no Rio Iguaçu
Como o rio Timbó está a leste de Porto União, minha intenção inicial era margear o rio até a localidade de Timbó Grande, local que foi o "arraial de Canudos" da Guerra do Contestado. Acabei indo apenas até Santa Cruz do Timbó e voltei; a estrada estava incrivelmente poeirenta, e nem a localidade nem o rio me animaram a ir em frente.
É curioso como ainda parece pesar a herança do Contestado sobre estas comunidades. A sensação foi a mesma que tive quando visitei as localidades que margeiam os rios Negro e Iguaçu.
Dois outros fatos, frutos unicamente do acaso, também sugerem que a região do Contestado está patinando. Em Mafra, no posto em que parei para tomar um café, a moça do caixa me perguntou "se Joinville tem bastante emprego". Em Porto União eu tive o hotel só para mim. Segundo o recepcionista, boa parte do público do hotel é justamente de gente que saiu de Porto União e aparece de quando em vez para visitar os parentes.
Figura 2: Ponte ferroviária sobre o Rio Iguaçu, convertida para ponte rodoviária com a extinção da ferrovia até Ponta Grossa
Figura 2: Ponte ferroviária sobre o Rio Iguaçu, convertida para ponte rodoviária com a extinção da ferrovia até Ponta Grossa
Até o trem turístico de Porto União, um grande atrativo turístico, está parado há algum tempo,  por briga política, ao que parece . Estão brigando para decidir a quem pertence a locomotiva 310 e enquanto isso ela fica parada (por que não usam uma locomotiva diesel então?). A capacidade do brasileiro em fazer "política negativa" sempre surpreende.
Figura 3: Estação de União. A fronteira estadual passa pelo meio dela.
Figura 3: Estação de União. A fronteira estadual passa pelo meio dela.
Figura 4: Linha São Francisco e Itararé-Uruguai, paralelas desde o pátio de manobras até este ponto, começam a divergir a partir daqui
Figura 4: Linha São Francisco e Itararé-Uruguai, paralelas desde o pátio de manobras até este ponto, começam a divergir a partir daqui
De minha parte, fiz o que pude para ser um bom turista e parei na lojinha da Doble W. Como não bebo muito, comprei umas garrafinhas-miniatura de Steinhäger. Inicialmente achei que tinha parado em frente a um quartel (devido aos prédios antigos e muito bem cuidados), mas era justamente a fábrica de bebidas.
Figura 5: Detalhe da fábrica Steinhäger em Porto União/SC
Figura 5: Detalhe da fábrica Steinhäger em Porto União/SC
Estes fatos reforçam minha crença naquilo que escrevi  no post recente sobre transportes . Assim como estas regiões floresceram quando a ferrovia era rainha, estão definhando agora porque o transporte é precário.
Enfim, uma vez em Porto União fui percorrer um trecho da antiga ferrovia (hoje estrada de rodagem) no Legru, que tinha deixado de lado da outra vez. Nada de especial, apenas o fetiche de pisar todo o trecho original da subida da serra. (Nos anos 1940 foi construída uma variante um pouco a leste.) É interessante refletir que por aquele lugar tão quieto passou Getúlio Vargas a caminho de assumir a presidência na revolução de 1930. Também passaram os presidentes Afonso Pena e Theodore Roosevelt, nos anos 1910.
Da outra vez me perdi na região do "quilômetro 13", mas desta feita tive melhor desempenho. Ainda por cima as encruzilhadas receberam placas novas, mais claras. Localizei facilmente a famosa "cachoeira do km. 13", onde o rio Pintadinho passa por baixo dos trilhos.
Figura 6: Bueiro do Rio Pintadinho no km 13
Figura 6: Bueiro do Rio Pintadinho no km 13
Figura 7: Ferrovia e cachoeira do km 13
Figura 7: Ferrovia e cachoeira do km 13
Foi um desatino visitar sozinho este local, pois é ermo e perigoso, mas tudo correu bem.  Este site possui dicas de como chegar lá.
Mais um videozinho pessoal da visita ao local:
Video: Filmagem na cachoeira do km 13
Figura 8: Ferrovia e cachoeira do km 13 (Set/2015)
Figura 8: Ferrovia e cachoeira do km 13 (Set/2015)
Figura 9: Ferrovia e cachoeira do km 13 (Set/2015)
Figura 9: Ferrovia e cachoeira do km 13 (Set/2015)
Perto dali, algumas lembranças da enxurrada de junho de 2014, que ainda não foram consertadas, e desde então bloqueiam completamente a ferrovia:
Figura 10: Desabamento de pedras perto da cachoeira do km 13 (Set/2015)
Figura 10: Desabamento de pedras perto da cachoeira do km 13 (Set/2015)
Figura 11: Aterro desmanchado sob o trilho perto da localidade km 13 (Set/2015)
Figura 11: Aterro desmanchado sob o trilho perto da localidade km 13 (Set/2015)
Voltei à cidade pela localidade "km 8" e percorri parte da estrada até Paula Freitas/PR, mas acabei desanimando por falta de atrativos. Apenas me chamou a atenção que a faixa de domínio da ferrovia, que ali foi arrancada (muitos trechos paranaenses da Itararé-Uruguai foram erradicados) foi reaproveitada como pista de caminhada e ciclismo. Destino um pouco menos trágico. Como a erradicação foi nos anos 1990, ainda há muitos resquícios bem óbvios.
Figura 12: Faixa de domínio da ferrovia em União da Vitória, convertida em ciclovia

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